A síndrome dos ovários policísticos (SOP) é uma condição hormonal e metabólica que pode afetar menstruação, ovulação, pele, pelos, peso e fertilidade. Apesar do nome conhecido, ela não é causada por cistos e não exige que o ultrassom mostre “ovários policísticos”.
A apresentação varia bastante. Algumas mulheres procuram atendimento por ciclos irregulares; outras, por acne, aumento de pelos, dificuldade para engravidar ou alterações metabólicas. O diagnóstico precisa reunir história, exame clínico e exames selecionados, além de excluir outras causas.
Por que a SOP agora também é chamada PMOS?
Em maio de 2026, um consenso internacional passou a adotar o nome Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome (PMOS) para a condição antes conhecida como PCOS, sigla em inglês para SOP. A mudança ocorreu porque o nome antigo dava a impressão de que o problema se limitava aos ovários e a supostos cistos.
Na realidade, a imagem vista no ultrassom corresponde a muitos folículos pequenos em determinado estágio de desenvolvimento, e não a cistos ovarianos anormais. A transição para PMOS deve acontecer gradualmente até a próxima atualização internacional prevista para 2028. Como “SOP” ainda é o termo mais conhecido e pesquisado no Brasil, ele continua sendo utilizado neste artigo junto com a explicação do nome novo.
Como o diagnóstico é feito em adultas?
Em mulheres adultas, o diagnóstico costuma considerar a presença de pelo menos dois de três grupos de achados, depois de excluir outras condições que podem causar sintomas semelhantes:
- Ovulação irregular: ciclos muito espaçados, ausência de menstruação ou outros padrões compatíveis com falta de ovulação regular.
- Excesso de andrógenos: pode aparecer como aumento de pelos, acne persistente, queda de cabelo de padrão hormonal ou alteração confirmada em exames.
- Morfologia ovariana compatível: identificada por ultrassom ou, em adultas e em situações apropriadas, pela avaliação do hormônio anti-mülleriano (AMH).
Quando já existem ciclos irregulares e sinais claros de excesso de andrógenos, o ultrassom nem sempre é necessário para confirmar a condição. O AMH também não deve ser usado como teste isolado ou solicitado indiscriminadamente.
E na adolescência?
Nos primeiros anos depois da primeira menstruação, irregularidade menstrual, acne e modificações hormonais podem fazer parte da puberdade. Por isso, o diagnóstico exige mais cautela: é preciso avaliar o padrão menstrual de acordo com o tempo desde a menarca e confirmar sinais de excesso de andrógenos.
Ultrassom ovariano e AMH não são recomendados para diagnosticar SOP durante a adolescência. Quando há sinais sugestivos, mas ainda não há critérios suficientes, o acompanhamento ao longo do tempo pode ser mais adequado do que colocar um rótulo precoce.
Quais sintomas podem aparecer?
- Ciclo menstrual: menstruações espaçadas, ausência de menstruação, sangramento irregular ou dificuldade para prever o período fértil.
- Pele e cabelos: acne, aumento de pelos em áreas como rosto, tórax ou abdômen e afinamento dos cabelos.
- Ovulação e fertilidade: demora para engravidar por ovulação irregular, embora muitas mulheres com SOP engravidem espontaneamente ou com tratamento.
- Metabolismo: resistência à insulina, alteração da glicose, colesterol ou pressão podem coexistir, inclusive em mulheres que não têm obesidade.
- Bem-estar: ansiedade, sintomas depressivos, preocupação com a imagem corporal e piora da qualidade de vida são mais frequentes e merecem ser perguntados na consulta.
Toda mulher com SOP tem resistência à insulina?
Não. A resistência à insulina é frequente e pode contribuir para alterações metabólicas e reprodutivas, mas não está presente da mesma maneira em todas as mulheres. Exames de insulina isolados também não definem o diagnóstico de SOP nem precisam ser repetidos sem uma pergunta clínica clara.
A avaliação metabólica costuma incluir glicose, colesterol, pressão arterial e outros exames conforme o histórico. O risco deve ser revisto ao longo da vida, mesmo quando o peso está dentro da faixa esperada.
Como o tratamento é escolhido?
Não existe um único tratamento para “a SOP”. O plano depende do que mais incomoda, dos riscos identificados e do desejo ou não de engravidar naquele momento.
- Regularidade menstrual e proteção do endométrio: podem ser discutidos tratamentos hormonais ou outras estratégias, considerando contraindicações e preferências.
- Acne, pelos e queda de cabelo: o tratamento pode reunir medidas dermatológicas e medicamentos, com atenção à necessidade de contracepção para algumas opções.
- Saúde metabólica: alimentação, movimento, sono e, em casos selecionados, medicamentos como a metformina podem ser considerados conforme os achados e objetivos.
- Fertilidade: quando há desejo de engravidar, a investigação e o tratamento são direcionados à ovulação e a outros fatores reprodutivos do casal.
- Saúde emocional: ansiedade, depressão, transtornos alimentares ou sofrimento com a imagem corporal precisam ser reconhecidos e tratados, não vistos como detalhes secundários.
É preciso emagrecer para tratar a SOP?
Não existe uma dieta obrigatória para SOP, e nenhuma composição alimentar se mostrou superior para todas as mulheres. Uma estratégia sustentável, adaptada à cultura, à rotina e às preferências, é mais útil do que restrições difíceis de manter.
Para quem apresenta ganho de peso ou obesidade, prevenir novos ganhos e alcançar uma redução possível pode melhorar alguns desfechos. Mas o cuidado não deve ficar condicionado ao emagrecimento: mulheres de todos os tamanhos corporais merecem investigação e tratamento dos sintomas.
Quatro dúvidas que aparecem muito nas redes sociais
- “Se não tenho cistos, não tenho SOP.” Incorreto. A condição não é definida por cistos, e o ultrassom é apenas uma das possíveis partes da avaliação em adultas.
- “Quem tem SOP não consegue engravidar.” A ovulação pode ser irregular, mas isso não significa infertilidade definitiva. Muitas mulheres engravidam espontaneamente ou com tratamento direcionado.
- “Preciso cortar carboidratos, glúten ou leite.” Não existe uma dieta universalmente superior para SOP. Restrições só devem ser feitas quando houver indicação própria e um plano nutricional adequado.
- “Inositol é natural e substitui o tratamento.” Os estudos mostram benefícios clínicos limitados e ainda não permitem recomendar uma forma ou dose específica. Qualidade e composição dos suplementos variam, por isso o uso deve ser informado ao profissional de saúde.
Quais cuidados são importantes ao longo da vida?
A SOP não envolve apenas fertilidade. O acompanhamento pode incluir risco de diabetes tipo 2, pressão alta, alterações do colesterol, apneia do sono e saúde emocional. Ciclos muito espaçados também merecem atenção para proteger o endométrio.
Ao planejar uma gestação, vale revisar glicose, pressão, medicamentos e condições gerais de saúde antes de tentar engravidar. A presença de SOP não significa que haverá complicações, mas permite organizar um acompanhamento mais atento.
Quando procurar atendimento?
Vale buscar avaliação quando os ciclos forem muito irregulares, houver ausência prolongada de menstruação, aumento de pelos ou acne que incomodem, queda de cabelo, dificuldade para engravidar ou alteração de glicose e colesterol. Sintomas que aparecem rapidamente ou sinais intensos de excesso de andrógenos exigem uma investigação mais breve para excluir outras causas.
O que você pode fazer agora?
Anote as datas das últimas menstruações, quando os sintomas começaram e os medicamentos ou suplementos que utiliza. Leve exames anteriores e, se houver desejo de engravidar, informe há quanto tempo está tentando. Esse conjunto costuma ajudar mais do que chegar à consulta com uma longa lista de exames hormonais solicitados por conta própria.
Seus ciclos estão irregulares ou surgiu dúvida sobre SOP?
Na consulta, avaliamos seus sintomas, histórico menstrual, objetivos e saúde metabólica para entender se há critérios para SOP e quais cuidados fazem sentido no seu caso.
Agendar consultaFontes e diretrizes
- Monash University. International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of PMOS/PCOS.
- Monash University. Atualização de terminologia: PCOS passa a PMOS — 2026.
- American Society for Reproductive Medicine. Recomendações internacionais para avaliação e manejo de PMOS/PCOS — 2023, atualizadas em 2026.
- International Evidence-based Guideline. Recomendações sobre diagnóstico, estilo de vida, fertilidade e inositol — 2023.
O conteúdo deste artigo é educativo e informativo. Ele não substitui consulta médica, diagnóstico ou tratamento individualizado.